Escrevam aqui a data que quiserem. Por exemplo: 9 de Janeiro de 2467...Sonho viver até lá.
Domingo opaco. A chuva tamborila com os dedos de violência branda no quadrado cinzento da janela...
E, de súbito, acode-me este desejo (que, na realidade, trazia há anos na cabeça): inventar um Diário à vista do público. Falso, mentiroso, impostor - verdadeiro, em suma.
Um livro sabiamente doseado de sombra e luz, com serpentes e andorinhas, confissões abertas (mas prudentes), escândalos (afinal comedidos), aqui o inevitável fio de fonte lírica, mais adiante duas ou três brutalidades de rasgar céus. Sem falar nas mentirolas habiatuais, dispostas com engenho de grosseria subtil, para que me engrandeçam perante a posteriedade (que nunca me lerá).
Tudo enrodilhado em meandros de inexactidão de datas e factos em desalinho, além de insinuações hábeis para rebaixar os camaradas vivos 8os mortos, esses posso eu sujá-los de elogios à vontade!), não esquecendo as aventuras com mulheres misteriosas (sobretudo para mim, por inexistentes) designadas com iniciais enigmáticas. A «X» de cabelos azuis-pálidos... A «Z» com uma trnça negra e outra platinada...
Em resumo: a comédia necessária para fabricar este espetáculo de algumas centenas de páginas em que tenciono reunir os mil anseios desfeitos na papelada amarelecida das pastas e o rebotalho antigo das gavetas. E até muitas folhas de cadernos íntimos, convenientemente mascaradas de simulações da Verdade - que parece sempre mais verdadeira quando mentida e inverídica...
Assim será - garanto - o Diário que vou encetar agora mesmo neste domingo de chuva miudinha...
(Qual chuva miudinha!, qual domingo! É quinta-feira e cai um sol medíocre de amadurecer pêras.)
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