A vida é feita de esperas tal como o surf

terça-feira, 13 de maio de 2008

Panela de Pressão


Não sei se já repararam, mas as marmitas e os tupperwares voltaram às empresas.
Sem que alguma vez tenham saído das fábricas.
Não se almoça, come-se qualquer coisa.
Nos supermercados dos grandes centros urbanos, há gente a pedir aparas de frango e de fiambre.
No interior do País, famílias insuspeitas recorrem aos cabazes alimentares distribuídos pelas câmaras.
Onde antes se tirava ao supérfluo hoje tira-se à comida.
Os filhos, a creche, as distâncias casa-trabalho, o empréstimo, os ordenados baixos, os aumentos inexistentes, as miragens do amanhã que tarda, não garantem a dignidade nem dão asas aos desejos.
Mas os salários de miséria convivem repetidas vezes com expectativas de grandeza. Marcas, empresas, estrategas de marketing, bancos, governantes, artistas, modelos, futebolistas, convencem-nos de que podemos ter a vida que não conseguimos pagar.
Dizem-nos, insinuam, que podemos ter as férias do patrão. O gabinete e o bem bom.
A casa, o carro e o relógio do chefe.
Ir onde ele vai, frequentar o mesmo restaurante, o ginásio, o spa, o que tiver de ser. Ler o que ele lê para assim estarmos mais próximos da cadeira do poder.

«Se ele pode porque é que eu não posso?!», perguntamos, indignados.

Grande civilização esta que democratiza a ilusão, mas esconde o preço para sustentar a miragem.
No fundo, governos, empresas, bancos, dão-nos crédito ao sonho, mas dizem-se indisponíveis para ajudar-nos a pagar a realidade de todos os dias.
E nós vamos na conversa.
Queremos ser cada vez maiores e melhores.
Belos, giros, modernaços, actualizados, ambiciosos (somos é uns grandes estúpidos). Dantes, no tempo dos nossos avós, até a ambição era uma coisa feia, mal vista e frequentada. Era uma falta de escrúpulos. Hoje é condição obrigatória em anúncio de emprego no jornal.
Buscamos o amor e a paixão em livros de ocasião, as competências em manuais, as curas em técnicas orientais. Por vezes, no local de trabalho, dizem que somos indispensáveis. Falam de motivar equipas, libertar o génio que há em nós. Dão-nos cursos para nos tornarmos trabalhadores multi-qualquer-coisa, flexibilizar ritmos, encarar a insegurança na profissão como um desafio às nossas capacidades. Mas na mercearia, ao final do dia, ainda não aceitam elogios como pagamento.
Um dia, dizem-me alguns, ainda crédulos, isto vai estoirar como uma panela de pressão.

Lamento desiludir: não vai.

Ficcionamos (ponderado) a vida como uma série de televisão. E gostamos de nos ver assim. Sempre à espera do próximo episódio. Do final feliz que não vem com a realidade.
A Devida Comédia

S-Lee .

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